quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Memórias Agressivas

Amanhã é o Dia da Não Violência Contra as Mulheres... então decidi compartilhar com vocês histórias pessoais, familiares ...
Sou filha de um lar desfeito antes mesmo de nascer (vivi desde 1 mês de vida até os 20 anos na casa dos meus tios-avós que sempre chamei de pai e mãe). 
O que pouca gente sabe é que meus pais biológicos se separaram 1 mês antes do meu nascimento, motivo: Agressão Doméstica.
Durante muitos anos eu e meu pai biológico não conseguiamos ter uma relação nem sequer de amizade por causa do grande sentimento de ódio que eu nutria por ele. Foram necessárias muitas conversas, terapia e maturidade para que hoje tenhamos o minimo de contato civilizado e amistoso.
Essa foi a 1ª mulher que vi, mesmo no ventre dela, sofrer com as humilhações e agressão fisica, fruto do alcoolismo do meu pai.
Depois aos 7 anos, vi minha irmã mais velha (de criação) ser agredida por meu cunhado, gravida de 7 meses, ele a pegou pelos cabelos e a jogou contra parede, mais uma vez o vicio era a causa predominante naquele comportamento agressivo. 
Infelizmente ele não parou por ai, e durante quase 8 anos de casamento foram sucessivas brigas que terminavam com socos, puxões de cabelo, e em ultimo caso boletim de ocorrencia, o qual ela sempre acabava retirando a queixa! O que passou a me revoltar! A essa altura eu já era uma adolescente... moravamos todos no mesmo quintal.
Já contei o desfecho desse casamento em um outro post (Os dois faleceram vitimas do HIV, ele usuario de drogas, contaminou minha irmã).
Quando comecei a namorar, aos 12 anos (precoce, eu sei...rsrs) em casa, tinhamos 6 anos de diferença, ele já ia fazer 18, e era muito ciumento. Controlador, me levava e buscava na escola, não queria que eu falasse com meus amigos e começou a implicar com minhas amigas também.
Um dia durante uma briga, ele disse que eu parecia uma vagabunda porque estava sentada na porta da "minha casa" conversando com meus amigos. Eu respondi: Vagabunda é a sua mãe que passa o dia inteiro na janela controlando a vida alheia!
Ele levantou a mão pra me bater, nessa hora não tive duvidas... eu disse: Bate, mas bate com vontade pra mim não levantar! - Ele baixou a mão... e então eu larguei a bofetada na cara dele! E disse: Nunca um homem vai me chamar de vagabunda ou levantar a mão pra mim e sair de graça... entendeu? ... Ele não revidou... ficou manso... mas o namoro acabou meses depois, porque ele era um galinha.
A atitude que tive de desferir aquele tapa não foi correto, mas pensei com todo o ódio acumulado ao longo das agressões que presenciei ... nunca mais um homem tentou me agredir. Acho que sempre fui o tipo agressiva demais para se deixar atingir. Sem contar o meu lindo rolo de massa de madeira pura que levo comigo desde que sai da casa dos meus pais, mudei de marido 2 vezes e ele vai comigo aonde eu vou!.... rsrsrsrs....
Infelizmente existem muitas Estelitas e Aparecidas por ai ... que apanham de seus companheiros, algumas abandonam o lar, como minha mãe biológica. Outras pagam com a vida pela esperança de que um canalha desse possa mudar, como minha irmã.
A violência as vezes começa de forma pequena, numa brincadeira, gesto ou situação que se não for observada e podada, acabará se tornando num circulo vicioso, sem saber onde tudo começou. E quando acaba o respeito, acabou tudo. 
As vezes começa com uma palavra... e pode acabar com um tiro!
Que outras mulheres consigam tirar forças de seu Utero como minha mãe e vivam sua vida longe de quem as maltrata ou humilha, buscando caminhos melhores para sí, como ela fez.
Hoje aos 51 anos é Assistente Social, mora em Campo Grande, é casada, e vive numa chacara com sua nova familia. 

***De um coração mais leve por compartilhar minhas vivências....

Babi Guerreiro
 

4 comentários:

Rachel disse...

Sem palavras!!
Eu vi de perto algumas situações, e se é que eu mesma não vivenciei (e não consigo analisar, admitir, sei lá).
Na luta, agora e sempre, contra a violência que aterroriza muitas mulheres ainda!!!
=*

Claudia Halley disse...

babi, obrigada por compartilhar a sua experiências...

([säm]) disse...

Poxa Babi...compartilhar suas lembranças e sentimentos sobre algo tão duro de se vivenciar só poderia mesmo ser digno de uma mulher forte como você

Por ter presenciado a violência contra sua irmã, e sua mãe, tenho certeza que isso reuniu em você a força necessária para que isso não se repetisse na sua vida.

Não podemos nos esquecer que não bastando a violência por parte dos parceiros (ou tentativa), temos ainda a violência que nós mesmas jogamos contra nós, destruindo nossos sonhos e menosprezando nossas qualidades e sentimentos...

As vezes é algo que nem percebemos...mas ferimos à nós mesmas com pensamentos e ações que se fossem contra outra pessoa seria visto como cruel.

Agora mesmo, na nossa rua, cidade, pais, do outro lado do mar, no mundo, uma mulher está sofrendo violência brutal e seus sonhos e vida estão sendo tolhidos e eliminados...

A Mulher Selvagem é aquela que cuida das nossas raizes...para que elas possam gerar vida ainda que toda nossa árvore seja derrubada...

Que Ela te abrace hoje Babi
e cure suas feridas

Beijos querida =***

Thaimí Quevedo disse...

Querida, Força Sempre... Passei por algumas situações parecidas ao longo de minha Jornada, e sei na pele o quanto a bebida alcóolica destroi lares, dignidade, amor ao proximo e amor a si mesmo! Mulheres Fortes e Guerreiras conseguem superar toda essa dor e angústia. Nós mulheres temos que nos amar em 1° lugar e não aceitar que situações como essas nos impeçam de ser felizes!!!
Luto sempre, contra a violência da Mulher e contra a todo o tipo de violência. Não permito isso!!! E nunca permitirei!!!
Força, Coragem e muita Paz a essas mulheres que ainda não conseguiram ver a Luz no fim do túnel!!!